Uma Mesa Vermelha e o verbo de 23 ex-presos políticos. No documentário A Mesa Vermelha, senhores jovens subversivos comentam, 50 anos depois do golpe, sobre a experiência nos presídios masculinos pernambucanos durante o período militar (1964-1985). O lançamento do filme acontece no próximo dia 1º de abril, às 19h, no Museu da Gente Sergipana, com exibição gratuita e aberta ao público.

Dirigido pela cineasta pernambucana Tuca Siqueira, o documentário resgata a memória dos anos de chumbo através dos depoimentos de 23 militantes de organizações de esquerda da época que estiveram detidos, de 1969 a 1979, entre a antiga Casa de Detenção – a atual Casa da Cultura, em Recife – , e a Penitenciária Professor Barreto Campelo, na Ilha de Itamaracá.

Da chegada ao cárcere, do afeto, das greves de fome, do papel dos coletivos dentro da cadeia. O sentimento de pertencimento é o que move o documentário. Aos personagens, o pertencimento a uma geração. Ao público, o sentimento de pertencimento a um país que busca sua Memória, que busca a Verdade.

Através das lembranças e denúncias dos ex-presos políticos, o filme retrata como era a convivência, as diferenças, os rachas, as resistências e o sentimento de solidariedade existente entre eles. O documentário começa abordando o contexto político, o que levou aquelas pessoas a atuarem em organizações, a luta, a clandestinidade, a queda e a chegada deles à prisão.

Os ex-presos políticos eram encaminhados para duas unidades prisionais depois do período de torturas e interrogatórios, para responder a processos e cumprir as penas
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Estima-se que, de 1969 a 1979, passaram pela antiga Casa de Detenção cerca de cem presos políticos, e 40 na Penitenciária Barreto Campelo.

SERGIPE EM CENA

Entre os 23 entrevistados, um sergipano. Ex-preso político e ex-militante da Ação Popular (AP), Bosco Rolemberg, 66, viveu por cinco anos, dos 26 aos 32anos, atrás das grades da Penitenciária Barreto Campelo, na Ilha de Itamaracá, entre 1974 e 1979. Gravado em Recife, em maio-junho de 2012, o documentário foi, para Bosco, o momento de reencontrar colegas de luta e cela que não via há 35 anos, e de reencontrar sua própria história, seus silêncios, suas dores e suas convicções desses anos sombrios.

“Eu vim porque é uma experiência que não pertence a mim. Pertence ao povo brasileiro, pertence aos comunistas do Brasil,  pertence a os meus filhos, pertence ao meu neto, pertence a minha esposa.  Então eu não tinha o direito de ficar com isso escondido ou guardado”, afirma no filme, no depoimento que abre A Mesa Vermelha.

Com 80 minutos de duração, o documentário é fruto do Projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça em parceria com o Movimento Tortura Nunca Mais de Pernambuco.

Idealizado pelas ex-presas políticas Lilia Gondim e Yara Falcón, elas contam que a iniciativa surgiu após a experiência do curta Vou contar para os meus filhos sobre o reencontro das ex-presas políticas da Colônia Penal Bom Pastor, também em  Recife, 40 anos depois. “É um reencontro com a história. Uma lacuna que está sendo preenchida. É a história viva. Passamos muito tempo sem falar nada. Tínhamos receio”, relata Yara Falcón.


Desde que foi lançado, em maio de 2013, A Mesa Vermelha já passou por Recife, Brasília e Porto Alegre, e circulará nos próximos meses por várias cidades do país, com o Festival Cinema pela Verdade, da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Agora a exibição chega em Aracaju, com o apoio do Museu da Gente Sergipana, do Instituto Banese e da Secretaria de Comunicação do Governo de Sergipe.

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