No começo do século XX, o sergipano Manoel Bomfim, então com 42 anos,  publicou em parceria com Olavo Bilac, o livro de leitura escolar Através do Brasil, que foi lido por diversas gerações de brasileiros nos bancos escolares ao longo de todo o século, tendo 66 edições até 1965. Um marco na literatura escolar brasileira. Por essas e outras, o grande educador, considerado um dos maiores intelectuais brasileiros de todos os tempos, ficou conhecido como “o professor de professores”. Vamos conhecer mais sobre ele.

 

Quem foi Manoel Bomfim

 

Manoel Bomfim foi um dos maiores intelectuais sergipanos de todos os tempos e um dos maiores do Brasil nas três primeiras décadas do século 20. Segundo um de seus biógrafos, o alagoano Ronaldo Conde Aguiar, o “esquecimento” de sua obra, profunda e volumosa, e de sua personalidade marcante, se deveram a algumas condições: a sua não aceitação em fazer parte dos 40 primeiros imortais da Academia Brasileira de Letras, convidado pelo fundador Machado de Assis; à sua crítica furiosa, radical (de raiz) e consistente às elites da República Velha; a não adesão do intelectual sergipano à Revolução de 1930, que para ele “não traz substituição de gentes, nem de programas, nem de processos”; não ter absolvido o Socialismo como teoria para sua obra nem para a sua militância, não obstante ter sido um simpatizante da Revolução Bolchevique de 1917. Sobre o Socialismo, Bomfim pontificou: “seria um sistema perfeito, se os homens fossem perfeitos”.

 

Este escrito é uma pequena contribuição para o (re) conhecimento sobre a vida e a obra do médico, psicólogo, escritor, pedagogo, professor, homem público, sociólogo e historiador sergipano, desconhecido da imensa maioria dos seus conterrâneos do presente.    

 

Manoel José do Bomfim nasceu em Aracaju em oito de agosto de 1868, filho de um próspero comerciante da Rua da Aurora (atual Avenida Rio Branco) e proprietário do engenho Quiçamã (São Cristóvão): Paulino José do Bomfim e de Maria Joaquina do Bomfim. “Nezinho” foi o quarto dos 13 filhos do casal. Por volta dos 12 anos foi morar no engenho Quiçamã, ajudando o pai a administrar a propriedade. Aos 16 anos, comunicou aos genitores a sua intenção de sair de Sergipe para se tornar médico.

 

Em 1886, o jovem Manoel José, com apenas 18 anos, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia. Dois anos depois, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde conheceu o poeta Olavo Bilac, tornando-se seu amigo até a morte deste em 1918. A dupla Bomfim e Bilac iria, nos 30 anos seguintes, realizar vários projetos literários e educativos. Em 1890, com 22 anos, concluiu o curso de Medicina com a tese “Das Nephrites”.

 

            O ano de 1891 foi significativo para Bomfim. Foi nomeado médico da Secretaria de Polícia do Rio de Janeiro e casou-se com Natividade Aurora de Oliveira. No ano seguinte, foi promovido a tenente-cirurgião da Brigada Militar (atual Polícia Militar) da capital federal de então. Naquele período escreveu seus primeiros artigos para a imprensa, atividade a qual realizou por quase toda a vida.

 

            Em 1894, com 26 anos, Bomfim perdeu seu pai Paulino José e, meses depois, sua filha Maria de três anos, durante uma epidemia de tifo. Desiludido com a Medicina abandonou a profissão.

 

            No ano de 1897 foi nomeado diretor-geral do Pedagogium, uma instituição federal criada por Benjamim Constant para a profissionalização e o aperfeiçoamento de professores públicos e particulares. Ao mesmo tempo lecionava a disciplina Instrução Moral e Cívica na Escola Normal, de formação de professores do Curso Primário, do Rio de Janeiro. Ainda lecionou nesta instituição as disciplinas Pedagogia e Psicologia Aplicada à Educação. No ano seguinte, foi nomeado o diretor da Instrução Pública (cargo equivalente ao de secretário de educação na atualidade) do Distrito Federal. No Pedagogium, Bomfim instalou o primeiro Laboratório de Psicologia Experimental do Brasil.

 

Por ter se tornado um homem público no campo da educação, ter escrito vários livros para o trabalho educativo, ser formador de professores e um defensor incansável da instrução sistemática para todos os brasileiros, se autodenominava um “professor de professores”. E o foi até os seus últimos dias. No seu derradeiro livro tratou da educação brasileira, como informaremos adiante.

 

            Nos anos seguintes publicou, em parceria com Olavo Bilac, Livro de Composição para o Curso Complementar das Escolas Primárias (1899) e Livro de Leitura para o Curso Complementar das Escolas Primárias (1901).

 

            No biênio 1902/1903 estudou Psicologia em Paris, com bolsa do Governo Federal.

 

Após ser solicitado por jornalistas parisienses para que escrevesse um artigo sobre a América Latina e o Brasil (em 1903), Bomfim escreveu um livro: América Latina Males de Origem, o seu primeiro título histórico-sociológico, publicado em 1905, tendo o autor a idade de 37 anos.

América Latina foi um livro original, contrário à visão preconceituosa que os europeus tinham dos latino-americanos, associando a mestiçagem a uma suposta inferioridade física, intelectual e moral. Visão esta, aceita e reproduzida por muitos intelectuais brasileiros de então. Apesar da boa aceitação, o livro foi criticado e desqualificado violentamente por Silvio Romero, conterrâneo de Bomfim. Romero era um dos maiores representantes das teorias racistas de superioridade da “raça” ariana ou germânica diante das “raças” mestiças locais. Para ele, os mestiços eram “uma sub-raça brasileira cruzada”. Darcy Ribeiro (ver fontes) adjetivou América Latina como “um livro extraordinário”.

 

Naquele mesmo ano (1905), junto com Luis Bartolomeu e Renato de Castro, fundou a revista infantil O Tico-Tico. A primeira revista em quadrinhos semanal e colorida do Brasil. Foi um sucesso desde a sua primeira edição. Foi publicada por quase 57 anos, até fevereiro de 1962, totalizando 2097 edições, divertindo e educando várias gerações de brasileiros.

 

Em 1906, Bomfim propôs ao prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, a idéia da composição de um hino à Bandeira Nacional. O projeto foi concretizado, o Hino à Bandeira, Letra de Olavo Bilac e música de Francisco Braga, espalhou-se pelo Brasil e foi oficializado pela República em 19 de novembro daquele ano. 

 

            Na legislatura 1907/1908, Bomfim foi eleito deputado federal, formando com Felisbelo Freire, Gilberto Amado e Silvio Romero uma “prestigiosa bancada sergipana”. Naquele período, além de parlamentar, exerceu outra vez o cargo de chefe da Instrução Pública do Distrito Federal (Rio de Janeiro).

 

            Em março de 1908, o deputado federal Manoel Bomfim chegou a Aracaju com a família, Natividade e seu filho Aníbal. Veio visitar sua mãe e irmãos, reunir-se com políticos correligionários da capital e do interior, agradecer os votos que o elegeram e reorganizar os negócios da família, entre eles a venda do engenho Quiçamã, em função da crise da produção açucareira que atingia o estado. Em 14 de fevereiro de 1909, após a derrota pleiteando a reeleição, Bomfim e família embarcaram no navio Satélite de volta ao Rio de Janeiro. Não mais voltaria a Sergipe.

 

            Em 1910, aos 42 anos, publicou, em parceria com Bilac, o livro de leitura escolar Através do Brasil, que foi lido por diversas gerações de brasileiros nos bancos escolares ao longo do século 20, tendo 66 edições até 1965. Um marco na literatura escolar brasileira. Da geração dos nossos avós para trás, todas as crianças brasileiras que foram à escola, aperfeiçoaram a leitura se deliciando com as aventuras dos garotos Carlos, Alfredo e Juvêncio de Através do Brasil.

 

            Em 1911, o “professor de professores” reassumiu a direção do Pedagogium, ficando até 1919, quando foi extinto. Por 19 anos dirigiu aquela instituição.

 

            Em 1915, em plena Primeira Guerra Mundial, Bomfim escreveu dois artigos no Jornal do Comércio (do Rio de Janeiro) intitulados A Obra do Germanismo, nos quais criticou os interesses geopolíticos da Alemanha e a responsabilidade daquele país em deflagrar o conflito. Transformou os artigos em um livreto e destinou o rendimento da venda da publicação à Cruz Vermelha da Bélgica, país invadido brutalmente pelo exército alemão. Ao final da guerra, em 22 de novembro de 1918, foi condecorado pelo rei Alberto I da Bélgica com a Ordem Leopoldo.

 

 

Texto de Antônio Wanderley de Melo Corrêa, publicado no Jornal do Dia, Aracaju: 08 e 09 agosto de 2012. P. 04.

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