Representatividade indígena nos Conselhos de Educação: voz, protagonismo e transformação.
O Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado em 9 de agosto, foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1995 como um marco global de reconhecimento das culturas, direitos e lutas dos povos originários. A data é um convite à reflexão sobre inclusão e respeito à diversidade, especialmente nas políticas públicas. Nesse contexto, a presença indígena nos Conselhos de Educação – municipais, estaduais e nacional – é uma conquista estratégica e transformadora.
Esses espaços colegiados são responsáveis por normatizar e deliberar sobre os sistemas de ensino, incluido a formulação de políticas educacionais. Quando ocupados por representantes indígenas, os Conselhos se tornam mais sensíveis às realidades, saberes e culturas dos povos originários, garantindo que suas vozes influenciem diretamente nas decisões que impactam suas comunidades.
Chikinha Paresí: pioneirismo e transformação
A criação de uma vaga para representação indígena no Conselho Nacional de Educação (CNE) foi uma resposta do Estado brasileiro após a participação do país na Conferência da ONU contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada em Durban (África do Sul), em 2001. Essa conquista foi um reflexo da Declaração e Programa de Ação de Durban, que propôs diretrizes globais para a superação do racismo institucional.
A primeira indígena a ocupar a cadeira no CNE foi Francisca Novantino Pinto de Ângelo, do povo Paresí, conhecida como Chikinha Paresí. Em 2003, sua nomeação marcou um divisor de águas na história da educação indígena no Brasil. Posteriormente, também ocuparam o cargo o acadêmico Gersem Baniwa e a professora Rita Gomes Potiguara.
Atualmente vice-presidente do Conselho Estadual de Educação Escolar Indígena de Mato Grosso (CEEI-MT), Chikinha permanece como uma voz firme na defesa da educação indígena. Ela reforça que ocupar esses espaços é mais do que representação – é ação concreta: “A condição de conselheiro é estratégica. Significa poder intervir na elaboração de diretrizes que assegurem currículo diferenciado, fortalecimento das línguas maternas, respeito aos calendários próprios, formação específica de professores indígenas e valorização dos saberes tradicionais. É, portanto, mais do que um espaço político: é um território de luta e afirmação identitária.”
Cinco regiões, uma luta coletiva
Inspirados por Chikinha Paresí, educadores indígenas de diferentes povos e regiões hoje ocupam cadeiras em conselhos educacionais, construindo uma educação mais plural, justa e representativa. Estados como Sergipe, Bahia, Roraima, Rio Grande do Sul e Espírito Santo se destacam por contar com conselheiros indígenas ou com comissões específicas voltadas à Educação Escolar Indígena. Essas experiências têm contribuído para o fortalecimento de políticas específicas, como a construção de currículos diferenciados, a formação de professores indígenas e a valorização das línguas e culturas tradicionais.
Sergipe
A professora Edinalva da Silva Mendes (Edy Serigy Tupinambá), representante sindical no Conselho Estadual de Educação de Sergipe (CEE/SE), relata: “O desafio que o SINTESE me propôs ao me indicar para o CEE/SE representa não apenas os professores Xokó, mas uma categoria inteira marcada pela luta e pelo compromisso com a educação pública de qualidade. Ocupamos um espaço onde as políticas que impactam nossas comunidades são decididas.”
Bahia
A professora Maria Jesuína Barbosa dos Santos (Jesuína Tupinambá), que integra o Conselho Estadual de Educação da Bahia (CEE/BA), reafirma o papel de resistência e diálogo: “A representação indígena no Conselho da Bahia nunca foi simbólica. É fruto da luta de lideranças que abriram caminho para que nossos saberes e modos de vida fossem reconhecidos. Como mulher indígena, cacique e educadora, meu compromisso é com o respeito à diversidade cultural e linguística dos povos baianos.”
Roraima
O professor Geisel Bento Julião (Geisel Wapichana), conselheiro no Conselho Estadual de Educação de Roraima (CEE/RR), reforça a importância do movimento indígena e da OPIRR (Organização dos Professores Indígenas de Roraima): “Nossa presença no CEE/RR garante os direitos conquistados em âmbito nacional e estadual. O debate que promovemos ajuda os demais conselheiros a compreenderem a organização das nossas escolas, nossas demandas e nossa estrutura. Isso gera empatia e fortalece a nossa luta.”
Rio Grande do Sul
O professor Bruno Ferreira (Bruno Kaingang), membro do Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Sul (CEE/RS), destaca os desafios enfrentados: “Estar no Conselho é essencial para defender a escola indígena específica, diferenciada e intercultural. Muitas vezes, as normatizações ignoram nossa realidade. Minha atuação busca garantir resoluções que respeitem a diversidade cultural dos povos indígenas, rompendo com o modelo de escola branqueadora.”
Espírito Santo
A professora Lucenilda de Souza Pego (Lucenilda Tupiniquim), prestes a assumir uma cadeira no Conselho Municipal de Educação de Aracruz, compartilha suas expectativas: “Atuo há nove anos na gestão escolar indígena e agora fui indicada para o Conselho. A presença indígena nesses espaços é fundamental para garantir que as políticas públicas sejam aplicadas conforme a realidade de cada povo. Aqui temos diferentes comunidades Guarani e Tupiniquim, cada uma com suas especificidades — e isso precisa ser respeitado.”
Caminhos para uma educação mais justa e plural
A presença indígena nos Conselhos de Educação das cinco regiões do país é prova concreta de que representatividade importa. Mais que um direito, ela é uma necessidade democrática para que as políticas públicas sejam construídas com base na diversidade e na escuta das comunidades que historicamente foram marginalizadas. O CEE/SE reafirma seu compromisso com uma educação pública plural, inclusiva e democrática, onde todos os povos tenham vez, voz e protagonismo na construção de um futuro mais justo.







